quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Patife


O Underground
A vida não era só bailes, r & b e funk.
Além da boa MPB, do jazz em todas as vertentes e algum rock progressivo, percorriamos também a musica clássica, geralmente de vanguarda. Particularmente gosto muito de Steve Reich, Webern, Stockhausen, Valter Smetak e outros concretos, pra mim, é o mais próximo que a música chegou da arquitetura.
As fontes: Rádio Cultura, Rádio Usp, Rádio Eldorado...
Costumava corujar essas rádios em horários não muito comerciais, geralmente tarde da noite e na madrugada, descobrindo muita coisa boa.
Entre tantos, este Patife Band – Corredor Polonês, que roda enquanto escrevo.

A história:
Estávamos no sítio da avó do Egon, num fim de semana em setembro ou outubro, era muito legal, afastado da civilização, próximo do alto da serra, e além do pomar diversificado, havia cachoeiras, trilhas, caminhadas, etc. Geralmente íamos no jipe Willis verde do pai do Egon, capota de lona plástica, seis cilindros, conforto zero, adrenalina mil. Andar nesse jipe já era por si só uma aventura.
À noite, depois da adrenalina, havia o jantar, geralmente preparado por nós mesmos, às vezes ficava bom. A noite estava agradável, e depois da bóia fomos até a varanda que havia nos fundos, pra contar as histórias do dia e lendas do sítio, enfim os “causos”.
Então, fui até o rádio que era, se eu não me engano do Nê (um “radião” portátil da Philco, com AM, FM e um seletor lateral com umas dez freqüências de ondas curtas, onde ouvíamos a BBC, a Radio France e outras...) e lá estou eu corujando quando ouvi aquele som diferente, que chamou logo a nossa atenção, o Malú e o Beto vieram ouvir também. Na rádio Usp lá estava a faixa título Corredor Polonês, que foi devidamente anotada e registrada para posterior averiguação.
Logo na semana seguinte achei na Hi-Fi Discos e comprei sem pensar, na certeza mesmo. E não me decepcionei. Me causa impacto até hoje.
A impressão:
Muito difícil classificar ou mesmo desenvolver uma crítica para este incrível "Corredor Polonês".
A faixa título, na minha opinião é a mais "comercial", se é que se pode chamar assim.
Ou a mais "fácil".
Mas não concordo com o rótulo "punk" ou "pós-punk", porque na época (1.987) já eram meio passados, embora a sonoridade do Patife tenha um apelo punk.
Mas é muito mais que isso. Tem um lirismo e uma riqueza muito maior que o som punk puro, que é mais cru, mais simples... O Patife faz o punk ficar bem "basiquinho"...
É muito maior e mais rico, mais "massa".
Tem um programa na Rádio Eldorado, apresentado pelo João Marcello Boscoli, chamado Música Urbana. O som do Patife me parece algo isso: musica urbana, gerada do imaginário da cidade, especificamente a metrópole cinza de calçadas sujas e chaminés, uma esquina de Santa Ifigênia com baixa Augusta com Nestor Pestana com General Carneiro, meio Amaral Gurgel/Minhocão, meio praça Roosevelt...
Vale do Anhangabaú a noite.
Tem também uma "brasilidade" que até hoje não consegui precisar, identificar a raiz.
Ouça "Maria Louca", última do lado "B", instrumental... É Brasil. Ou não é? Nunca ouvi nada estrangeiro que possa apontar como parecido, pelo menos.
Sonoridade potente. E atemporal.
Talvez se o Frank Zappa fosse vivo... (e passasse uma temporada por aqui...)

O show:
Tive a grande oportunidade de assistir ao Patife Band ao vivo, janeiro de 1989, fomos eu e o Fabinho, com o show "Corredor Polonês" numa terça-feira meia-noite, no Aeroanta, lugar que funcionava no Largo da Batata em Pinheiros. Fomos lá algumas vezes, era um galpão, lugar despojado, misto de danceteria e casa de shows, beeeem alternativo para a época (moderno, o banheiro era unissex). Excelente o show, se o disco já era uma pedrada, ao vivo então...
Paulo Barnabé, acossado pelos demais Patifes da Band, rosnou as faixas clássicas do Corredor, mais algumas outras não menos polonesas que não me lembro mais direito, porém decepcionou ao não tocar “Vida de operário”,  apesar do clamor geral da dileta platéia formada por todos os tipos de malucos beleza, punks verdadeiros e podres, falsos e chiques, boys de todas as cores, minorias afros, caipiras, índios, nórdicos e maiorias idem também. Gente de terno e gravata (algum fim de expediente).
E até nós.
Que fomos trabalhar pouco depois. Pois é, a genuína “Vida de Operário“...

Aliás,
o Fabinho sempre presente. Além do Patife, nessa época, por aí, fomos num Free Jazz (mais vanguarda...): John Zorn, saxofonista + big band novaiorquinos com suas peças incrivelmente rápidas, algumas com seis segundos(!); Cecil Taylor, pianista meio “pai-de-santo”, acompanhado só(?) de um percussionista, que, depois que o santo "baixou" tocou(tocaram) torrencialmente sem interrupção durante mais de três horas, após as quais tivemos que sair pois a cabeça não absorvia mais nada...  E fomos também assistir a Jean-Luc Ponty, violinista francês e banda, jazz fusion etéreo não tão vanguarda mas muito instrumental, virtuose.
Se eu não me engano, tudo em 1988.
Ano muito musical, uma espécie de auge...

Um comentário:

  1. Muito bom Roger. O "Corredor Polonês" do Patife Band, pra mim é um dos melhores discos lançados nos anos 80. Ele tem muita coisa nas entrelinhas: ferocidade, velocidade, jazz, urbanidade, regionalismo, rock, violência/fúria & lirismo, pancada e poesia. Paulo Barnabé, que foi um dos pilares do movimento Lira Paulistana junto com seu brother Arrigo anos antes, catalizou toda sua experiência anterior neste LP excepcional e atemporal.

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