terça-feira, 27 de março de 2012

Vô Ricardo em livro!

Muito me honrou a inclusão de uma crônica minha no recente livro "De Maria a José - Histórias de Pessoas Comuns que Fizeram São Caetano o que é Hoje"(capa acima), obra coeditada pela Biblioteca Paul Harris e a Secretaria de Cultura de São Caetano do Sul. O reparte direcionado aos autores evaporou-se rapidamente e eu não consegui mostrá-lo ao vivo aos amigos. Mas não há de ser nada - esse espaço aqui é para isso mesmo. Segue na íntegra, a crônica em homenagem ao meu saudoso e heróico Vô Ricardo (com participações especialíssimas dos meus primos, da mana Helô, Dona Lourdes - outra heroína na minha vida - Vó Maria e tias queridas). Pena que poucos de vocês puderam conhecer o Seu Ricardo ( Lupa, Rogério, Léo, Lu, Égon, Zequinha, Carlão e outros poucos), embora eu bem saiba que nossa geração foi privilegiada em termos de vô/vó (ô turma boa aquela nascida no início do século XX!). Segue:



 Marcos Massolini

Na vida, sempre buscamos heróis. Seja nas histórias em quadrinhos, no cinema ou na literatura, desde a tenra infância direcionamos nossa parabólica interna na tentativa de localizar um herói que seja. Eu colecionei muitos personagens heróicos saídos de epopéias de papel e sagas de película, mas o maior privilégio da minha vida foi quando me deparei com um em particular, no próprio seio familiar. Ricardo Pareja Marigo era de carne e osso, safra 1907, e por contingências do destino, pai da minha mãe. Vindo do Ipiranga em fins dos anos 40, trouxe a mulher, Maria, espanhola da gema, e suas três filhas, para morar na quase inabitada Vila Barcelona da época, perto da divisa com Santo André. Como era do seu feitio, construiu sua casa com seu próprio sopro e aos poucos incorporou-se ao lugar, plantando sementes em frestas, enfeitando buracos e arborizando vizinhos.
Vieram os netos, todos próximos, e vô Ricardo, claro, desde sempre foi nosso herói. Passeava a pé com os pequenos, criava bonequinhos e maquetes, construía clubinho de madeira no quintal, tocava bandolim, sempre com seu chapéu cinza no cocuruto (e chapéu feito de jornal quando pintava parede). Segundo tia Cida, sua filha mais velha, ele desenhava tão bem, que muitos da Vila Barcelona dos anos 40 e 50 vinham pedir pra ele fazer as plantas ou os projetos de suas casas. Pintava quadros, mexia na terra, fazia trabalhos de pedreiro, era mesmo um super-herói. Sem capa, espada ou poderes aparentes, mas com um assobio matinal que tinha o poder de levitar o que estivesse à sua volta.
Certa feita resolveu fazer uma balança no quintal da minha casa. Levantou os caibros, amarrou os balanços e pronto. Eu e a “primaiada” adoramos!  Helô, Adri, Eli, Rica, todo mundo queria balançar. E realmente todos brincaram a tarde toda, até enjoar. No outro dia, pra dar uma faceta nova à brincadeira, eu e meu primo resolvemos apostar quem conseguia balançar mais alto (estas coisas nunca dão certo). Num dado momento da disputa, podíamos ver a rua por detrás do telhado, tal a altura que nos encontrávamos. Então aconteceu: a madeira deu uma rangida, o parafuso titubeou e a moldura do balanço veio abaixo. Só que nós estávamos ainda lá em cima no terceiro andar, o que nos fez alçar vôo. Diga-se de passagem, um vôo digno de um pingüim ou outra ave tolhida de asas apropriadas, pois cada um foi se estatelar pra um lado. Rica caiu em cima de um formigueiro e eu, feito um míssil, encontrei pela frente o muro do vizinho, onde rachei a cabeça. E lá foi minha mãe, a santa Dona Lourdes, correr comigo no colo, mais uma vez. Fiz uns cinco pontinhos na cabeça (os primeiros de uma série) e a noite, vejam vocês, sonhei que estava voando com meu avô, que ostentava duas asas enormes. Um anjo de chapéu cinza.
Em finais de tardes modorrentos, quando uma melancolia renitente tenta se infiltrar nas calhas da casa que Seu Ricardo construiu há mais de 60 anos, e não por coincidência, a mesma casa em que vivo hoje, um certo assobio providencial invade os canteiros, as cantoneiras, as fechaduras, as portinholas, os tapumes, as braçadeiras, as dobras dos corações e nos conforta. Ao lado de minha querida tia Cida, Aparecida Pareja Alves Bezerra, não por coincidência, vizinha da velha casa e filha do grande herói, me entrego ao assobio, até que por força e atração do inequívoco vôo do vô, levitamos. 

2 comentários:

  1. Grande Malu, você consegui em poucas palavras e frases sintetizar toda a tragetória de vida de seu avô. Tive a oportunidade de conviver alguns momentos junto a ele, sempre muito gentil e brincalhão, solícito, enfim um Lord paulistano.
    Você sabe que o vento que percorre os canteiros não é assoprado apenas por ele, mas também por um fruto doce que ele semeou por aqui e hoje juntos compartilham de cuidar de vocês aí nesta casa com raízes.
    Grande abraço e parabéns.
    Egão

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  2. Grande Egão! adorei o "Lord paulistano"...com certeza por aqui estamos bem guardados! abração a todos aí. Valeu!

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