quinta-feira, 21 de junho de 2012

Externato Santo Antônio

( o bom filho... ) Sim, gente. Estou voltando, devagar. O tratamento contra a Hepatite é, graças a Deus, um sucesso. Falta pouco pra acabar. E entre um Interferon e outro ( o remédio dá um bom bocado de reações ), aproveito para falar dessa fase muito festiva em escolas.

Ah, as Quermesses. Embora caindo no esquecimento, algumas delas ainda teimam em marcar território. Uma delas é a da Igreja de São João Batista, no Rudge Ramos. Mesmo não tendo quadrilha e ter um congestionamento de barracas, resiste.

Outra dessas quermesses que resistem ao tempo é a do Externato Santo Antônio, ocorrida no final de semana passado. Mas o progresso condena antigas tradições.

O relato que colo aqui é da Celina Araújo. Ele esteve no encontro de ex-alunos do ESA durante a Quermesse.

É de doer.

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Ficaram apenas o padre, os palhaços e a pizza



É, fazia 21 anos que eu saíra de lá, sem nunca mais ter visitado a parte interna do colégio onde estudei da 3ª à 8ª série, quando existia 1º grau. Educadores modernos, poupem-me de converter esse período para o sistema atual – mas vocês devem concluir que seria o equivalente aos 4os e 9os anos de hoje em dia.

Amigos leitores, também não vou tomar seu tempo descrevendo com pieguice o que a escola representa na história de vida da gente – todo mundo sabe que ela, os professores e os amigos de infância são marcantes na biografia de qualquer pessoa.

Assim como o portão principal da General Motors faz parte da paisagem da Avenida Goiás, em São Caetano do Sul, SP, a fachada do Externato Santo Antônio (ESA), com suas letras pastilhadas em mosaico, também fazia. E há muito tempo eu passava por ali e via um pretencioso ar de modernidade naquelas letras sobrepostas, pinturas azul-turquesas e fotos de ex-alunos bem-sucedidos no vestibular.

Dos amigos que ainda moram em São Caetano, ouvia dizer que o ESA é reconhecidamente uma “escola forte”, que completava 80 anos de fundação sobrevivendo à feroz concorrência com a educação comercial moderna, mantendo-se como referência na cidade. Claro que, como ex-aluna, muito me orgulhava.

Celina Araújo e, ao fundo, o
ladrilho do Padre Luis Scrossoppi,
na parededo prédio do Ginásio


Como muita gente de trinta e poucos anos, reencontrei a turma de 1991 do ESA na internet, foi um grande prazer. Ano passado alguns deles foram à tradicionalíssima festa junina, postaram fotos e fiquei com uma inveja enorme deles terem abraçado a Irmã Liliana e saboreado a gordurosa pizza que transbordava mussarela pelos lados. Desta vez, quando o pessoal colocou o convite novamente no Facebook, não perdi tempo e me agendei para estar lá no dia 16 de junho, como sempre, no fim de semana seguinte ao dia de nosso patrono Santo Antônio.

Chegando lá, minha euforia era enorme, parecia até que estava embarcando nas tão aguardadas excursões para o Playcenter. A Ana Luisa, que me acompanhava, confessou ter ficado com vergonha quando eu abordava alguns pais e mães de alunos sem qualquer cerimônia, indagando de cara: “você estudou aqui, eu lembro!” Indescritível a emoção de voltar e identificar as referências do passado.

Neste ponto, fiquei desapontada. No pátio central, onde a festa junina é realizada, tudo mudou: nada de playground, bancos de madeira, nada de árvores, quase nada de plantas - afinal, tudo agora é coberto. Excelente poder usar a quadra externa nos dias de chuva, mas precisava cobrir o pátio todo? A ventilação ficou muito comprometida, a acústica causaria arrepios aos meus amigos da Associação Brasileira para a Qualidade Acústica (Pró-Acústica) e a unidade arquitetônica é um caso a ser denunciado ao Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Ex-alunos, vocês só reconheceriam ali os latões de lixo em formato de palhaço e a imagem azulejada do Padre Luis Scrosoppi, o fundador da Congregação das Irmãs da Providência. 

O 'palhaço', um dos inúmeros
lixos que havia no pátio do ESA

Aliás, administradores do ESA, segue aqui um pedido: nesse ímpeto de destruir uma edificação que permaneceu linda por tantas décadas e priorizar novas construções de gosto duvidoso, por favor, preservem as pinturas do padre e também aquela de Jesus com as criancinhas, na Rua Marechal Deodoro. Honestamente, sempre achei de um purismo chato aqueles arquitetos e historiadores que lutam pela preservação dos prédios, mas agora estou lamentando que eles não tenham atuado no ESA.
Claro que foi importante realizar obras de acessibilidade, renovar banheiros e bebedouros e criar espaços para atender a novas necessidades, como a recepção aos pais. Mas não posso me conter quando percebo que a fachada original foi totalmente descaracterizada sem qualquer benefício aparente, assim como aconteceu com o pátio central.

Uma fuga rápida para onde era
a 8ªC, classe da Celina. Eram 5
salas, e eu estudei na 8ªE
Educação moderna, na minha opinião, é muito mais do que construir prédios novos. Passa por proposta pedagógica inovadora, professores e funcionários atualizados e também estrutura física atualizada. Destruir mais uma parte da escola para construir um estacionamento vertical com vagas a serem alugadas para a iniciativa privada? Não, não acho que a educação moderna passe por aí. Se você também é saudosista e não entendeu esta última parte, explico: parece que a nossa antiga quadra coberta está sendo destruída para dar lugar ao tal estacionamento com quadra suspensa, localizados em uma das áreas mais valorizadas da cidade. 

Ah, está curioso para saber se a pizza feita pelas madres e comprada no recreio continua a mesma? Infelizmente, quase não se veem madres no Externato, ouvi dizer que elas agora são apenas meia-dúzia (literalmente seis) no total. E a pizza não é mais dobrada ao meio, a massa ficou grossa e a temperatura, muito fria. Acabei de conferir que Luiz Scrosoppi foi canonizado santo em 2001. São Luiz Scrosoppi, rogai pelo nosso ESA!

Celina Araujo é jornalista e ex-aluna do Externato Santo Antônio (ESA).



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Participei do Jubileu de Ouro do Externato Santo Antônio, sabe-se lá em que ano foi isso. Acho que em 1990, sei lá. Não havia sequer ainda nenhuma pista da reforma que o Externato sofreria.

Aliás, o que acontece no Externato hoje é exatamente a cara de São Caetano: especulação imobiliária, derrubamento de locais históricos ( como a construção de um shopping center caríssimo onde era parte da Indústria Matarazzo, no bairro Cerâmica ).

Fica aqui um convite. Sabe aquela pessoa da família que quem fotos de todos os parentes? Ligue para ela, leve um computador e um scanner e puxe tudo. Em breve, infelizmente ( não sei até que ponto ) a cidade de São Caetano do Sul tenderá a ser um grande Externato Santo Antônio sem madres.

E com pizzas feitas de ovo choco.

3 comentários:

  1. Olá Léo,

    Como ex-ESA também lamento sobre algumas coisas. O que sinto falta são dos quitutes que as freiras faziam e que não tinha igual em lugar nenhum... nunca me esquecerei do gosto e do cheiro de cada um...principalmente da esfiha...era o que eu mais gostava.
    No entanto, o tempo passa. As pessoas crescem, "emodernam-se" e tudo que nos cercam também sofrem essas mudanças. Ora para melhor, ora para pior...quanto ao ESA não foi diferente. Concordo que poderiam ter preservado um pouco mais suas estruturas, e continuar atuando como sempre atuou, porém o fator "modernidade" (entenda-se capitalismo mesmo) fala mais alto. Gostei da recepção, sem dúvida ficou mais atrativa, clara e funcional, mas a fachada, talvez, pudesse ter sido mais preservada. Enfim, muitas coisas melhoraram, e outras nem tanto, o que vale mesmo, disso tudo e que por mais que os tempos passem, serão as excelentes lembranças que temos e que estarão sempre conosco...as amizades que fizemos e que ainda mantemos, e as amizades que passaram ...boas lembranças serão eternizadas em nossas fotos desbotadas, em nossas relíquias amareladas...e em nossas memórias...Acho que é isso. Bj e boa recuperação.

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  2. Bem pertinente o post, Leo. Não fui no Externato, mas sei que a festa junina da Barcelona está bem esvaziada este ano. na do Rudge fui neste final de semana com a patroa e as crianças e embora tenha achado bem congestionada mesmo ( principalmente a partir das 21hs quando entope de adolescentes) eu adorei o churrasco da primeira barraca ( a maior, bem de frente pro supermercado) e acabei devorando três com gosto. Também gostei da variedade, com barracas para todo gosto: acarajé, espeto de camarão, chá de amendoim, tapioca, doces dos mais variados, canjica, comida japonesa, etc etc. Mas concordo que hoje em dia está tudo muito padronizado e consumista, focado principalmente na degustação e no bingo - depreciando velhas tradições como a quadrilha, o correio elegante e a música genuína.

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  3. Bem pertinente o post, Leo. Não fui no Externato, mas sei que a festa junina da Barcelona está bem esvaziada este ano. na do Rudge fui neste final de semana com a patroa e as crianças e embora tenha achado bem congestionada mesmo ( principalmente a partir das 21hs quando entope de adolescentes) eu adorei o churrasco da primeira barraca ( a maior, bem de frente pro supermercado) e acabei devorando três com gosto. Também gostei da variedade, com barracas para todo gosto: acarajé, espeto de camarão, chá de amendoim, tapioca, doces dos mais variados, canjica, comida japonesa, etc etc. Mas concordo que hoje em dia está tudo muito padronizado e consumista, focado principalmente na degustação e no bingo - depreciando velhas tradições como a quadrilha, o correio elegante e a música genuína.

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